Servidores públicos aposentados falam sobre as  experiências de uma vida dedicada ao trabalho e destacam as mudanças históricas que viveram  

De bebês a idosos, a servidora pública aposentada Coraci Cardoso de Azevedo, de 72 anos, cuidou de muita gente durante os 35 anos em que atuou como educadora social em Goiânia, trabalhando diretamente com a comunidade. Após cursar o magistério no tradicional Instituto de Educação de Goiás, ela ingressou no Centro Social Urbano, unidade de assistência social que nos anos 1970 funcionava no Jardim Novo Mundo, atendendo a crianças da região. Na década seguinte, dona Coraci trabalhou em instituições destinadas ao atendimento de menores infratores ou de acolhimento a meninos e meninas em situação de rua. Naquela época, recorda, entre o fim da ditadura e o início da abertura política, conflitos com as forças policiais ainda aconteciam. “Já arrisquei minha vida para proteger um menino de um policial armado, colocando-me entre os dois para impedir uma tragédia. Felizmente, terminou tudo bem”, lembra-se dona Coraci, que especializou-se em Psicopedagogia.

Nos anos 1990 e começo dos anos 2000, ela desenvolveu várias atividades no Centro Comunitário do Novo Mundo, mas desta vez contemplando os moradores de terceira idade. “Foi muito gratificante colaborar para a melhoria da infraestrutura e de atendimento aos idosos, a maioria sem condições financeiras, oferecendo atividades de lazer e sociabilização”, destaca.

“Tenho muito orgulho da minha carreira. Se ela fosse um filme, seria um filme muito bonito”, conclui Dona Coraci, ressaltando que nem a falta de retorno financeiro da profissão conseguiria deixar essa história triste.

Vocação e esforço

A descoberta da própria vocação nem sempre vem fácil, como atesta Marinete  de Souza, de 57 anos. “Chorei na primeira vez em que dei aula” — 10 anos após ter iniciado a carreira como servidora pública mas até então na área administrativa, recorda. Ela começou a trabalhar em Goiânia, na Secretaria Estadual da Educação, em 1979, na área de contabilidade, mas no final dos anos 1980 mudou-se com o marido para Valparaíso.

Nesta transferência, ela começou a trabalhar na secretaria de uma  escola, onde descobriu uma nova possibilidade profissional. “Comecei como leiga e depois estudei Pedagogia. Fui muito feliz como professora e procurava ser bastante criativa com os alunos. Criava até música para facilitar o aprendizado”, conta Marinete,  que cursou seis especializações na área de Educação.

Além de professora, ela foi supervisora pedagógica da região do Entorno de Brasília, onde também foi diretora. “Aquela área é muita violenta. Enfrentei ameaças de bandidos e traficantes que agiam na porta da escola, mas consegui, apesar disso tudo, transformar essa realidade. Consegui conquistar os alunos e a comunidade, que ganhou uma escola de verdade”, orgulha-se a servidora aposentada.

Ao fazer um balanço, a ex-professora lembra-se do contexto político do início da carreira.  “A situação do mudou muito de quando eu comecei — era na época do Ary Valadão. No final do regime militar, os servidores ainda não tinham voz. Ajudei a criar a primeira Associação dos Servidores Públicos de Goiás — os sindicatos estavam começando a se fortalecer naquela época. Independentemente do partido, eu sempre procurei estar contra as injustiças, fosse pelos alunos ou pela categoria”, declara. Marinete também cursou Direito e advoga.

Recursos Humanos

Aposentada há apenas seis meses, Zilá Duarte Amorim, de 54 anos, é servidora pública desde os 18 anos. “Logo após terminar o ensino médio em contabilidade passei num concurso e não tinha muita certeza sobre a minha carreira, por ser tão jovem, mas hoje tenho orgulho dela”, afirma a aposentada, que sempre atuou na área de recursos humanos, como assistente em gestão administrativa de pessoal.

Nos anos 1980, quase todo o serviço era manual, o que, para quem lidava diretamente com a folha de pagamento, como Zilá, exigia fins de semana inteiros de plantão. “Eram muitos cálculos, planilhas, pilhas de papel, embora já houvesse um sistema de computador central. Naquele tempo, quando eu comecei, não havia nem o contracheque. Usávamos cheque administrativo. Agora imagine isso no dia dos vencimentos”, recorda-se Zilá, com um sorriso no rosto.

Foi no final dos anos 1990, lembra-se, que a sua área realmente sofreu o impacto da virada tecnológica. A princípio, como a maioria dos servidores, ela  teve dificuldades em se adaptar às novas exigências do mercado. “Até então não havíamos sido treinados para lidar com a implantação dos novos sistemas de informatização. Finalmente, a partir dos anos 2000, toda a estrutura do Estado se modernizou e passamos por diversos cursos de capacitação. Isso, esse investimento nas pessoas, fez com que eu me sentisse valorizada”,  recorda.

A valorização do servidor público é uma preocupação constante em sua carreira, mesmo hoje. “Sempre procurei participar das manifestações pacíficas, indo atrás dos nosso direitos, mas também sempre procurei honrar a nossa imagem, trabalhando e me qualificando, fazendo mais do que me era pedido, sem me acomodar. No departamento pessoal eu sei fazer de tudo”, orgulha-se.

“Fico triste quando questionam a nossa capacidade e dedicação ao trabalho, ou quando querem culpar o aposentado por tudo de ruim no País.”, afirma. Porém, depois dos 35 anos dedicados ao serviço público, Zilá não pensa em parar de trabalhar.