Nesta semana, o site do SINDIPÚBLICO publicará a íntegra de reportagens veiculadas no caderno especial da entidade que circulou no jornal O Popular deste domingo (11). Aqui, compartilhamos uma dessas reportagens, uma homenagem à mulher servidora em alusão a março, o mês da mulher.

No Mês da Mulher,  o SINDIPÚBLICO presta homenagem à  dedicação e competência das servidoras públicas — que representam 55,9% no total de servidores ativos do Estado. Por meio da trajetória de três servidoras que se destacam em seu trabalho e que relatam suas conquistas e desafios no serviço público, o sindicato ressalta  a importância e abrangência da luta pela igualdade de direitos e oportunidades para as mulheres, o que representa uma vitória para toda a sociedade.

Lucilene Rosa
Identidade e direitos

Natural de Cavalcante, uma pequena cidade na Chapada dos Veadeiros, a servidora  Lucilene dos Santos Rosa, de 35 anos, gerente de Projetos Intersetoriais e Comunidades Tradicionais da Secretaria Cidadã, é Bacharel em Turismo e faz pós-graduação em História e Cultura das Africanidades Brasileiras na UEG. Após trabalhar no Sebrae, ela ingressou no serviço público em 2009, na cidade-natal, onde foi secretária da Igualdade Racial.  Em 2011, Lucilene passou a trabalhar na extinta Semira e atual Secretaria Cidadã, em Goiânia.

“Desde sempre fui caminhando para trabalhar com questões públicas, desde Cavalcante, minha terra, onde participava de debates e reivindicações da comunidade quilombola, da militância no movimento negro”,  frisa a gerente.

Embora um dos destaques de sua gerência seja desenvolver e coordenar programas, projetos e ações que tenham como meta a eliminação das discriminações e desigualdades étnico-raciais, muitas vezes ela já foi tratada como “diferente” por ser uma mulher negra num cargo de chefia.   

“As pessoas olham e perguntam: ‘você é mesmo gerente de Estado?’ ou ‘é você que vai fazer a fala ou palestra?’. Já espero essas atitudes em locais em que não me conhecem”, conta. “Sou uma gerente que faço questão de valorizar minha identidade étnica. Uso sempre roupas com cores fortes, cabelos black e penteados com tranças e faço questão de falar sempre da minha descendência quilombola”, orgullha-se Lucilene Rosa.  

Para ela, tanto o serviço público quanto o privado discriminam a mulher, pois ambos fazem parte de uma cultura discriminatória que ainda temos arraigada em nós. “A mulher sofre com o mesmo tipo de preconceito e discriminação nas relações de trabalho, interpessoal e valorização salarial ou a falta dela”, observa,  lembrando que a mulher negra recebe o menor salário, mesmo quando desenvolve a mesma função que a mulher branca.

A própria condição de servidora pública, acredita, é um fator de transformação na sociedade em geral para começar a mudar esse quadro. “Uma servidora pública tem mais condições de ser uma disseminadora de mudanças sociais se ela assim se prontificar a fazê-lo”, defende Lucilene. Entre as ações na Superintendência de Igualdade Racial, ela cita trabalhos específicos com mulheres negras no estado, principalmente mulheres quilombolas, em relação à   autoestima, informações sobre os direitos das mulheres e sobre enfrentamento ao crime de racismo e violência doméstica.

Goi‚nia – Goi·s 04/10/2014
Cidades – Laura de Castro Teixeira, delegada.

Laura Castro
Igualdade contra a violência

Atender mulheres vítimas de violência, e protegê-las, é o cotidiano da delegada plantonista Laura Castro, que atua na Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam).  “Infelizmente, Goiás é um dos Estados mais violentos com a mulher no País. Trata-se, sem dúvida, de um desafio enorme e o fato de ser servidora pública torna ainda mais relevante esse trabalho. Cabe a nós, servidores, o dever de realizar a ponte entre os cidadãos e o acesso à principal função do Estado, que é a prestação do serviço público”, declara.

De certa forma, avalia a servidora, o serviço público, apesar de várias ressalvas, é um espaço que dá mais oportunidade às mulheres. “Quando se trata de cargo ou emprego cujo provimento se dá mediante concurso público, ou seja, com base no mérito do candidato, pode-se perceber que o ingresso na carreira pública se dá de forma mais igualitária, pois não há espaço para distinções”, considera a delegada.

No entanto, acrescenta Laura, o acesso às funções mais elevadas, em regra, objeto de nomeação, é quase sempre inacessível às mulheres. “Tome-se por exemplo o órgão ao qual estou vinculada, que é a Polícia Civil: os principais cargos de direção são todos ocupados por homens. Das dezessete Delegacias Regionais, somente duas são comandadas por mulheres”, destaca.

Laura, mulher trans, lamenta que, muitas vezes, a utilização do conceito de igualdade de gêneros, importante ferramenta na luta pelo fim da violência contra as mulheres, resvale nos limites dos debates partidários ou de cunho religioso. “Aí perde-se o interesse maior, que é o interesse público”, destaca.

Formada em Direito, em 2009 Laura passou no concurso para delegada e atuou como titular em cidades do entorno da capital e também no interior do estado. Em Porangatu, ela atuou como titular da coordenação  do Grupo Especial de Repressão a Narcóticos (Genarc). A partir de 2014, Laura, hoje com 37 anos, passou a responder como plantonista da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher, tornando-se a primeira delegada trans do Brasil. No ano passado,  ela participou de uma campanha do Ministério Público do Trabalho em Goiás contra o preconceito no mercado de trabalho.

“Não escondo que sou mulher trans. O fato se tornou público e foi noticiado principalmente por eu ser delegada, mas evito chamar a atenção para este aspecto da minha vida particular. O que realmente importa aqui é o meu papel como servidora pública, o meu dever como delegada. Sou respeitada pelos colegas e no contato com o público pelo meu trabalho, algo essencial para mim”, frisa.

 

Gláucia Maria Teodoro
Não ao machismo institucional

Superintendente Executiva da Mulher e da Igualdade Racial do Estado de Goiás, Gláucia Maria Teodoro, de 54 anos,  ingressou no serviço público em 1980. Formada em Agronomia e Direito e doutoranda em Direito pela Universidade Nacional de Buenos Aires, ela foi Secretária Estadual de Política para as Mulheres e Promoção da Igualdade Racial. (2011 a 2014).

Ao longo de sua carreira, Gláucia Maria observou que, independentemente do segmento e da ocupação, qualquer mulher sempre passa por algum processo de discriminação. “No meu caso, que fui a única secretária mulher, por um período, várias vezes ouvi em reuniões que eu chegava para enfeitar a mesa, ainda mais por ser gestora de uma secretaria, depois superintendência, voltada para políticas para as mulheres — o que nem sempre é considerado uma prioridade dentro de um plano institucional”, conta.

Uma de suas maiores satisfações como secretária e superintendente tem sido a implantação de projetos para minimizar o machismo institucional presente em vários níveis. “É muito gratificante ver o desenvolvimento de políticas de ascensão da mulher aos cargos públicos de poder”, afirma Gláucia Maria. “É muito significativo, também a título de motivação, o exemplo de mulheres em cargos de destaque”, acrescenta.

Ela cita, entre ações importantes da superintendência, programas de interiorização do combate à violência contra a mulher, com a criação de centros especializados de atendimentos em parceria com várias prefeituras, além de projetos para atendimento à mulher no meio rural. A superintendente frisa, ainda, a construção das Casas da Mulher Goiana, unidades de acolhimento provisório a mulheres vítimas de violência doméstica, onde serão oferecidos atendimento psicossocial e jurídico, além de cursos de capacitação profissional.

Fonte: Assessoria de Comunicação do SINDIPÚBLICO | Ampli Comunicação