Leia íntegra de artigo assinado pelas jornalistas e radialistas filiadas ao SINDIPÚBLICO Vânia Savioli, Karine Pinheiro, Yara Galvão e Riva Kran publicado originalmente em caderno especial da entidade veiculado no último domingo em O Popular.

Historicamente, as mulheres começaram a votar em 1893 na Nova Zelândia. No Brasil, em 1932. Seja votando ou sendo votadas, a nós nunca foram oferecidos avanços, rupturas ou direitos. Eles foram construídos e conquistados no enfrentamento com homens, mulheres e instituições que sempre acreditaram ser natural definir os espaços onde a mulher poderia e deveria existir. Na família, igreja, mercado de trabalho ou na sociedade em geral, o esforço sempre foi de conter o feminino em seus papéis de esposa, mãe, filha e devota, às vezes trabalhadora disciplinada, com funções delimitadas e claras. Mas a figura feminina é sinônimo de teimosia e apesar da concentração de esforços e energias, algo no espírito feminino nunca pôde ser contido. Vamos falar de duas mulheres que teimaram em caminhar em espaços cultural e historicamente construídos como masculinos, mas que aos poucos estão mudando. Falemos de Cristina e Adriana. Mulheres que, cada uma a seu modo, teimaram.

Cristina, aos 20 anos, teve 85% do corpo queimado pelo ex-namorado, depois de terminar o relacionamento, ficou em estado crítico e sem chances de sobreviver. Cristina se recuperou. Cursou fisioterapia e educação física, lutou para melhorar o atendimento e tratamento a vítimas de queimadura e hoje é vereadora em Goiânia. Na câmara municipal, dos 35 vereadores, cinco são mulheres. Ela avalia que a educação da mulher deve ser ampla e não limitadora. Ela diz: “Essas questões de gênero estão colocadas desde o nascimento. Os meninos são incentivados ao espírito desbravador, explorar a força física. Já as meninas são mais cercadas e limitadas. As brincadeiras na infância reforçam muito os padrões de comportamento. A forma de criação vai desdobrando e reflete isso a vida toda. No mundo do trabalho, as diferenças vêm diminuindo, mas a gente percebe essa diferenciação das carreiras mais masculinas e as femininas. As barreiras vêm sendo quebradas, mas ainda causam um constrangimento grande para a mulher. Uma coisa muito grave é a questão da violência em todas as suas formas de expressão: física, psicológica, sexual e patrimonial. Vemos em vários países em situação de crise, uma exposição da mulher e a perda de direitos. Esse é um momento em que as mulheres precisam manter sua resistência, se rebelar, denunciar, porque essa é uma ação que tem que ser coletiva. Nós só vamos vencer isso com trabalho coletivo, com denúncia, marcha, pronunciamento, campanhas. As mulheres precisam entender que unidas elas podem mais e vão mais longe. Por tudo que eu passei, fiz do combate à violência contra a mulher a minha missão.”

Adriana fez direito, passou em concurso público para delegada, atuou na delegacia que investiga crimes contra crianças e adolescentes, foi delegada geral da polícia civil em Goiás, secretária municipal de defesa social de Goiânia e hoje é deputada estadual. Adriana enfrentou críticas e resistência por ser mulher em um cargo de liderança historicamente masculino. Na assembleia, dos 41 deputados, quatro são mulheres. Para ela, na polícia e na política o desafio é cotidiano, tanto na execução do cargo, quanto em colocar pautas femininas em discussão. “O mais desafiador é enfrentar o pensamento das pessoas de que a mulher não tem a mesma capacidade ou competência que o homem para exercer alguma atividade ou profissão. Tanto na polícia quanto na política, eu enfrentei a desconfiança na minha capacidade e isso não só magoa muito como faz a gente ter que provar que somos capazes a todo momento. Também é muito difícil colocar as questões de gênero em discussão, como os direitos das mulheres, mundo do trabalho, violência. Quando exerci cargos de chefia senti isso muito forte, mas eu acredito que provei a condição e a capacidade da mulher em ocupar esses espaços. Nós temos muitas conquistas, mas os desafios são enormes. Cada vez mais a presença da mulher na política e nos espaços de poder é necessária. É ela que garante a elaboração de políticas que contemplem as nossas necessidades e angústias.”

A vereadora Dra. Cristina e a deputada estadual Adriana Accorsi podem ser consideradas uma referência na luta pelos direitos das mulheres e materializam a resistência e o enfrentamento que, ao longo da história, possibilitaram a conquista de tantos direitos. Nem toda mulher quer ser candidata, militante ou liderança. Outras querem. O mais importante é que qualquer que seja o espaço em que atuemos e vivamos, possamos observar, discutir e avaliar sempre o papel da mulher. Avaliar as conquistas e os desafios futuros. A luta, que não começou ontem e não vai terminar amanhã, é que permite que hoje a mulher possa escolher o caminho a trilhar, ainda que com obstáculos, mas com o direito à escolha. E mais, que nós mulheres possamos encorajar e apoiar outras mulheres em suas caminhadas e nas batalhas futuras, com muito carinho, solidariedade e teimosia.

Vânia Savioli, Karine Pinheiro, Yara Galvão e Riva Kran. Radialistas, jornalistas, concursadas da ABC e filiadas ao SINDIPÚBLICO